sexta-feira, 13 de julho de 2007

EXORTAÇÃO AO PRETÉRITO IMPERFEITO.

Enquanto ouvia um programa de rádio hoje cedo durante o banho - hábitos antigos - despertei para o óbvio que se repete desde há muito em meu cotidiano...
Deu-me um estalo e, de súbito, me surpreendi pensando estar em uma outra década.
Essa sensação me foi, porém, nova ante um dia aparentemente comum e com todas as chances para se repetir, como que em série, no conjunto de dias que constroem essa minha quase sempre fatigada vivência.

Meu banho, meus horários, minhas preocupações ante a abordagem profissional exigida para este dia, a notícia recontada sobre violência que me põe - às vezes, pensativo e triste - alardeada como coisas novas no noticiário.
Meu eterno cansaço ante um dia que começa sempre - a meu ver - muito cedo, são características de um início destruidor de pequenos fragmentos de vida...

Uma vida conjugada sacrificadamente no Presente do Modo Indicativo em função de uma possível, mas pouco provável estabilidade financeira no Futuro do Presente...

Viver no Presente do Modo Indicativo é, sem dúvida em tese, a única alternativa que se tem...Contudo, partilhar das ações conjugáveis e comumente adicionadas como regra no encarte dos melhores e mais audaciosos Homens deste tempo é abandonar por completo, a possibilidade de se permitir viver de modo integral no Presente que realmente nos interessa.

Certamente não estou sendo claro...

Mas reflitemos...
Grande parte das pessoas hoje em dia vive em um tempo que não é exatamente o Presente do Modo Indicativo,suas atividades diárias estão intimamente direcionadas para o Futuro.
O Presente está condicionado a um sonhar irrestrito com as aspirações deste tempo, a juventude anseia projetar-se adequadamente em um Mercado de Trabalho que lhe assegure visibilidade e um tipo de sucesso ancorado no poder de compra; o Homem de hoje destaca-se por viver em função do que supõe poder ser num futuro imediato, este Homem vangloria-se por ter titulação acadêmica de vinte anos de estudo tecnicista, ostenta orgulhoso os anos que passou afastado de seu Presente em função incondicional de um Futuro de glórias e condecorações.

O Futuro que originalmente se acreditava trazer grandes surpresas e que seria grandiosamente maravilhoso com a graça de Deus, parece não mais limitar-se como coisa abstrata, o Futuro nos invade o Presente.

Hoje meus contemporâneos se encontram subordinados a um Presente-ausente que se perfaz na busca incansável da construção de um Futuro com bem estar e comodidade.

O Presente já não nos basta, o Futuro já não mais algo nos traz.

Acaso no Presente acomodaríamos um outro sentimento que não o sentimento da insatisfação?

Corremos num tempo-espaço indefinível à procura do que não pode estar lá se não for construído aqui.

Corremos atrás de coisas demais, fugimos de nós.
Largamos nosso agora.

O tempo que se avizinha nos assusta mais ainda se estivermos presentes no Presente.

O Homem de hoje amarga um Presente sempre aquém do que se propõe a serem os mais ambiciosos e decentes homens...
Debutamos como gente grande sentindo-nos impróprios para o mundo novo por termos que provar o que podemos ser, escondendo sempre o que somos e o que temos sido.
Nossos jovens usam a Universidade como passaporte que os credencie diante de nós, e neles acreditamos à medida que muito se larguem do Presente e vivam eufóricos na construção exaustiva do Amanhã, nesses creditamos nosso louvor e deles professamos que serão algo, alguém...

Como é triste constatar que nada somos se muito não pudermos ser!

Essa sociedade parece doida, fugindo no tempo ao tempo à procura de um estamento de vida que lhe justifique a vida perdida.
Por certo acreditamos na possibilidade de já não termos Presentes sem a crença de que se possa ter Futuro.

O desespero se instala.
Nossos filhos tornam-se cativos de cursos, especializam-se em tudo, simulam habilidades para um mundo eclético amparados em nossas frustrações passadas e presentes.
Nossos Jovens sofrem por não lhes ser permitido estar onde estão, nós os projetamos num tempo-espaço que aqui não sei definir.
E cá estão os jovens de hoje, preocupados em provar para outrem - também inseguro - que lutam incansavelmente dia e noite para ter um Futuro promissor.

Meu banho se dá desta feita, estranhamente lento, percebo abismado mãos que há muito não via, vejo em suas linhas o equívoco que desde sempre fiz tanta questão em segurar, manter e controlar.
Minhas mãos estiveram tempo demais ocupadas com meu Futuro, estas mãos largaram mãos que imploravam um Presente intenso, vívido.
Muito me acovardei por não me permitir viver o Presente, como me dói entender que de muita Felicidade abrí mão por não ter tido tempo e angustia-me ver que sobrou-me o Tempo necessário para ver que a Felicidade recusada lá transformou-se no amargo que tenho cá.
O Tempo que não tive para a Felicidade é o mesmo que hoje me falta com as ocupações que acumulei.
Essas mãos foram jogadas desde sempre entre os joelho, num sono breve, em noites curtas de Presente duro e um Futuro de acalanto e sonhos.

"Meus sonhos" ocuparam desde há muito minhas mãos carentes de afeto e toque... (sim, aspas,
não saberia ao certo afirmar que foram realmente meus todos os sonhos pelos quais briguei...)

Minhas mãos deslizam pelo meu corpo, minhas mãos tocam pés que tomaram forma sem que eu visse, calos que se formavam e os deformaram sem que deles fizesse algum caso, estes pés foram longe...
Vejo pés que de tão brancos já não parecem meus.
Ouso não crer que fôra com estes pés que muito desembestara entusiasmado quando criança, pelos campos orvalhados de Una de São José, nego-me a identificar nestes pés o equívoco de um caminhar desencontrado de minha direção...
Nego-me, ademais, a admitir que meu Futuro é este Presente inquietante pelos desafios de um Tempo que já se achega trazendo novos desafios e impulsionando-me a um recomeço cotidiano na construção de um novo Futuro.
Quero negar-me na perpetuação do erro, não tenho forças, meu Futuro urge, e em meus ouvidos tagarelam sugestionamentos mil...

Toco meus joelhos.

Lembro e lamento as longas carreiras que nunca dei num destrambelhar de peito ao vento e sorriso aberto, lembro ainda o cheiro das manhãs que não senti, a relva verde que não me dignei a pisar e sobre ela parar, sentir...
Esses joelhos se entrevarão sem que nunca tenham sido hábeis, ficarão trêmulos sem nunca terem ostentado o peso de um bem estar Presente.
Em meu rosto vejo marcas, rastos.
Linhas que me acusam por expressões que se repetiam num gestual diário de fadiga e dissabor ante a lida adquirida e mantida.
Estas linhas me alinham num conjunto de outros que, aos milhares, de Futuro preencheram seus Presentes...

Saio do banho.

O dia se mostra claro e desafiador.
Em meu quarto vejo bem de perto o mundo que para mim criei, acostumei-me demais com coisas demais; esse cheiro de mofo; essa luz artificial; essas paredes em tons pastéis, cores secundárias, esse odor de artefatos que lembram lavanda; essas coisas tantas que guardo por insistir terem algum valor.
O Radio ainda toca, desta feita, um Programa da Rádio RC – FM de Itambé-PE me faz vibrar ante uma constatação:
MINHA GERAÇÃO NÃO CANTAMAIS, POR NADA MAIS ENCANTÁ-LA...
Esse Tempo parece estéril,a Arte parece infértil,o pensamento parece atado,recatado demais para o laborar do Tempo que se apresenta.
Ouço e entendo que os de ontem embalam os de hoje, e estes, quando ainda sensíveis reparam nos que já se foram pessoas vivas pois algo dizem.

Salve Gonzaguinha!
Viva para sempre Cazuza!
Seja eternamente lembrado Renato!

Nesta manhã, a música não é de hoje e quem pensa não está mais aqui nesse Presente.
Nesta manhã, meu dia não recomeça por não me ser permitido recomeço, apenas começo pelo que devo.

Esses tempos não nos dão muitas chances por apresentarem-se ecléticos demais.

Meus dias são autoritários porque tiram meu Presente, atam-me ao Futuro e desfaleço como gente ausente.

Dizer que SOU não posso, falta-me essa flexão na linguagem gramatical que ora espio, o Presente do Modo Indicativo encontra-se em construção num tempo Futuro que se contrafaz no Presente.

Será destruindo o Presente que se constrói o Futuro?
É essa construção que de todos nós tem tirado o direito de sentir a própria dor.

Chego ao guarda-roupas.
Cá estão roupas que julgo apresentar-me e falar por mim.
Roupas que me fazem ostentar o galardão de um Homem batalhador e intransigentemente guerreiro na luta por um lugar ao sol.
Ornamento-me para que minha indumentária fale por mim, propague meu státus, determine meu meio, projete-me decentemente entre os "decentes" de hoje, sou típico do meu tempo por não caber-me na mente um pensar díspar do que me convenciono entender do que sou num Tempo que desconheço.

Estou para o Futuro, no presente o acaso se faz.
Um café rápido, como é rápido também o meu olhar para os meus.
Um grande dia me espera.Agora não posso fraquejar, tenho montanhas a ultrapassar,
inimigos a vencer, ignorar.

Esse meu Presente é desafiador, apresenta-se ante meus olhos comose de concreto fosse.
Estarei ocupado por quinze horas, nas demais me imaginarei num emprego melhor, n’algo que me remunere e dignifique mais.

Meu Presente se vende.
Horas-extras de trabalho para o bem estar se instalar mais depressa, barganhamos com nossa vida em função de um Futuro que urge num Presente que tarda.
Pessoas me esperam.

Construo Futuros, sou peça-chave nessa mecânica que delega a todos o compromisso sacro-santo com o Futuro.

Estou pronto.
Saio decerto tranqüilo, convicto de que neste Presente muito se pode fazer por um tempo que ouso intitular de "o tempo para todos".
No Presente, vamos dando um jeito.

O riso - quando não vazio - é triste,
NÃO CHORAMOS MAIS, pelo menos de paixão e alegria,
nossa música é raquítica,
nossa compreensão condicionada,
nosso prazer tolhido,
nosso doce é aguado.

Na verdade...

Nosso PALADAR um Tempo levou.
Estamos MÍOPES e nosso TATO e precário.
Temos mesmo que acreditar e trabalhar por um Futuro...
Muito bom seria se pudéssemos fazer isso do Pretérito Imperfeito.
Além de ser onde melhor estivemos,
nosso Presente é um preço muito alto.



Marcilon Oliveira.
À precariedade deste Tempo...
Aos precavidos do Presente.

2 comentários:

deiavalim disse...

Achei fantástica a maneira como descreveu seu cotidiano, é preciso atentar para os detalhes, senti-los e só assim realmente viver.

Marcilon Oliveira disse...

Pow Deiavalim...

Fantástica é a sua honrosa visita pow!

Beijo! ^^